Comecei este blog como um diário. Sou uma pessoa esquecida e acho que é preciso saber de onde viemos para saber para onde vamos. Cada texto é só um bocadinho da minha vida. Mas há uns tempos que ando a pensar que isto tudo faz mais sentido como parte de algo maior: o propósito da nossa vinda para o Alentejo e o abraçar de uma vida completamente nova.
Daí que arranjámos uma espécie de blog-irmão-mais-novo dedicado só ao alojamento local, em que este diário será uma pequena parte.
Portanto, duplicámos o nome e vamos arranjar um espacinho aqui ao lado para manter tudo juntinho, afinal somos aquilo que fazemos e aquilo de que gostamos e as experiências que vivemos.
Começamos logo pelo princípio e vamos acrescentando lugares que nos fazem felizes, coisas para fazer, boa comida e bom vinho, lojas, praias, outros projectos. Aqui no Alentejo ou no resto do país.
Este foi o primeiro post e podem ler o resto do texto em
"A nossa estória começou em Lisboa. Já tive o prazer de, em tempos, a contar ao jornal Sol e começa assim:
Uma tarde, no último dia de umas férias de Verão no Alentejo, sem a mínima vontade de voltar ao trabalho em Lisboa, baixou em mim a mui original fantasia de “ e se nos mudarmos aqui para o campo, remodelarmos o monte e o alugarmos a estrangeiros?”
“ Talvez um dia”. Foi a resposta do namorado, antes de começar a fazer as malas, sozinho.
Isto foi ainda antes da moda dos jovens licenciados, desgostosos com a vida na cidade, deixarem a correr os seus empregos e irem viver para o campo para se dedicarem à agricultura. Foi antes da moda dos revivalismos e dos pequenos negócios da internet chegarem à televisão."
Mas hoje apeteceu-me.
A propósito do Dia da Mulher recuperei parte de um texto que escrevi para o Jornal Sol há um ano atrás.
"...Quando dei aulas de informática na Universidade Sénior cá da terra, uma das aulas era do meio-dia à uma da tarde. As senhoras preferiam quase todas a aula das nove. Os maridos almoçavam ao meio dia e meia hora. E elas tinham de fazer o almoço. Sugeri que deixassem a comida feita e pronta a aquecer para poderem vir à aula. Não dava. Segundo elas, eles não saberiam sequer pôr o tacho ao lume.
Numa das primeiras aulas e perante o mundo gigantesco que é a internet, perguntei às senhoras o que lhes interessava ver. Não obtendo resposta, mudei um bocadinho de estratégia e resolvi perguntar o que mais gostavam de fazer, para tentar arranjar uma ligação às possibilidades infinitas que a internet lhes poderia vir a proporcionar. A maior parte das senhoras elegeu "passar a ferro" como a sua actividade preferida. Nem música, nem cinema, nem viagens. Decidi tentar na mesma e ensinei
as senhoras a fazer pesquisa no motor de busca. Tentei de tudo. As músicas e filmes da sua época, os galãs do cinema, os acontecimentos históricos, as receitas gastronómicas de outros países. Acabei a ensinar-lhes a pôr "gostos" no facebook.
Se calhar, se perguntarem a estas senhoras se acham bem que haja uma barbearia onde elas não podem entrar, as senhoras até agradecem é que os maridos lá vão passar o dia todo e lhes dêem uma folga."
Esta é a minha: ainda há muito por fazer. E eu gostava tanto que a próxima geração fosse de homens mais respeitadores e de mulheres mais exigentes. Gostava, sobretudo, que a próxima geração fosse de gente tão feliz quanto esclarecida, dos seus direitos e da sua liberdade de escolha. E em grande parte, depende de nós, agora!
Nos últimos dois anos sexta-sim, sexta-não escrevi para uma coluna para o semanário Sol. Alguns textos deram-me tanto prazer escrever que chegou a ser difícil pôr o ponto final e dar por terminado o processo. Outros tiveram que ser como que arrancados a ferros. Mas no fim acabei sempre por surpreender-me no fim comigo mesma. É um exercício exigente mas altamente recompensador, porque senti sempre que, no fim, seria capaz e que o texto seria entregue dentro do prazo.
Ficarei sempre grata ao arquitecto José António Saraiva por ter restaurado um pouco da minha fé na humanidade ao responder ao meu primeiro e-mail, quando muitos outros nem se deram ao trabalho de o fazer ( e todos sabemos que na maior parte das vezes só queremos uma resposta, mesmo que essa resposta seja "esqueça lá isso, você não presta).
Obrigada, foi uma honra!
Há duas semanas escrevi para o Semanário Sol. No facebook do jornal, a malta resolveu ligar mais à parte em que eu escrevo "Mas, se queremos embandeirar em arco a nossa independência financeira e emocional, depois não vale ir a casa da mãezinha buscar o tupperware da sopa para a semana ao mesmo tempo que lá deixamos a roupa suja para lavar e engomar". Foram dezenas de comentários, principalmente de mulherio que confessa ir almoçar ou jantar a casa dos paizinhos todos os dias. Toda uma geração que confessa exportar a sua roupa suja para casa da mãezinha, porque a mãezinha é como o Omo, lava mais branco. Tanta indignação com o barbeiro onde as mulheres não podem entrar e com os artigos do José António Saraiva no Sol e depois BUMBA!, vai de armar a mãezinha criada vitalícia da roupa suja e da marmita semanal.
Depois ainda há alguém que acha que eu me dou mal com a minha mãezinha e há malta que acha que aos "miminhus*" da mãezinha nunca se diz que não, porque, claro, miminhos e servidão confundem-se.
Criaturas mimalhentas, aqui vai disto:
1. Eu dou-me muito bem com a Mommy, só não faço dela lavadeira nem sopeira.
2. Em minha casa, nós, eu e o meu irmão, ajudávamos nas tarefas domésticas, de maneira que nunca achei que lavar roupa fosse tarefa exclusiva da mãezinha. Eu também pedincho coisas, mas é mais livros e plantas.
3. Sim, acho que quem vai almoçar todos os dias a casa dos paizinhos sofre de preguiça aguda muito mais do que saudades.
4. Com certeza que a mãezinha até fica chateada se a malta não for lá almoçar todos os dias. Por aquilo que consigo perceber, a mãezinha foi vossa criada a vida inteira e agora que vocês, marmanjos e marmanjas saíram de casa, a senhora não sabe o que fazer com tanto tempo livre. Se gostam assim tanto da mãezinha, vão lá a casa tomar chá com ela. Mas façam-no vocês, sirvam-no e no fim levantem a mesa. Então não acham que a senhora merece algum descanso???
Ressalva:
É claro que isto não se aplica quando vivemos longe dos pais e os vemos de mês a mês ou menos do que isso. Porque aí, sabendo que lá vamos estar o fim-de-semana inteiro, os pais encheram a dispensa com comida suficiente para um exército e no fim sobrará comida. Comida essa que em nossa casa e bem racionada dará para um mês inteirinho, porque nós somos mulheres modernas e se nos pudermos escapar à cozinha tanto melhor.
*Por último, criaturas:
Se não sabem que "miminhus" se escreve com "o" no fim, porque em boa verdade nunca foram grande espingarda a português, abstenham-se de fazer comentários no facebook. Sim, eu sei que é só a porcaria do facebook, mas fazem figura de parvos na mesma!
Pronto!Chega! Larga o teclado! Vai pôr a roupa a lavar que a mãezinha vem cá passar o fim-de-semana e aproveita e passa tudo a ferro. 'Tou a brincar!
A Crónica do Alentejo profundo, onde, desta vez e para variar, falo de trapinhos. Porque mesmo uma rapariga do campo, agora, quer-se arranjadinha. E, nem mesmo o facto de a Mango ou a H&M (ultimamente, as minhas preferidas) mais próxima ficarem a mais de 90 quilómetros é desculpa para não andarmos sempre arranjadinhas. (Sim, a mesma palavra em duas frases seguidas. Podia ter escrito "top", que parece que 'tá muito na moda, mas acho isso parvo.)
A propósito, obrigada à Ritinha, que quando veio de visita me trouxe um casaco, que eu andava a namorar à distância.
Diz-se que a vida são dois dias. Nós sabemos que a Festa do Avante são três, e este ano a "feira" são cinco. A "feira", assim mesmo entre aspas porque para as gentes da terra feira só há uma e é esta.
No momento em que escrevo esta crónica faltam menos de quinze dias para a abertura das hostilidades. Uma vila inteira está em contagem decrescente para o grande evento e as despedidas na rua, em vez do tradicional "dá cumprimentos à mãezinha" terminam agora com um efusivo:
— "E então este ano vais à feira?"
A feira de Agosto é uma espécie de Expo 98 dos últimos dias. Como não se paga entrada, no primeiro dia vai toda a gente porque é a inauguração. No segundo dia, a malta vai toda junta porque combinou, no terceiro dia vai-se para correr as tasquinhas que ficaram esquecidas. No penúltimo dia é porque está quase a acabar. E no último dia é obrigatório ir porque é o último dia e agora só para o ano.
A feira de Agosto anuncia o princípio do fim do Verão e é o ponto alto do ano cá por estas bandas. Senhoras da vila inteira rumam emdirecção aos cabeleireiros para estarem no seu melhor para as festividades, que este ano metem tourada outra vez.
Há quem vá pela cerveja ou pelo moscatel, ou a bem da verdade, pela pinga assim em geral. Fazem-se apostas a ver quem aguenta os dias todos em modo de beber até cair para o lado. Há quem vá pelo choco frito, pelas farturas e pelo algodão doce.As moças casadoiras vão em busca do amor, e se eu tivesse que adivinhar diria que muitas relações começaram e acabaram na feira. Assim como muitas paixões duraram apenas o tempo de uma "feira".
Eu vou pelo artesanato. Cumpro uma tradição familiar que é a de ir em busca do cesto perfeito a um preço justo. O cesto perfeito para arrumar a lenha na sala ao lado da salamandra, o cesto perfeito para servir de fruteira, o cesto perfeito para guardar uma mantinha ao lado do sofá, que vai dar imenso jeito nas noite de Inverno. À demanda pelo cesto perfeito, este ano junta-se o desafio de encontrar chocalhos pequeninos, mantas alentejanas e botas, porque o tempo de usar sabrinas no Inverno já passou e eu sou cada vez mais uma rapariga do campo.Por incrível que pareça,e ao contrário do que seria de esperar,este tipo de coisas não se encontra em cada esquina e mesmo estando no Alentejo profundo não é nada fácil depararmo-nos com este ou com qualquer tipo de artesanato. Infelizmente, e para mal dos meus pecados ou a bem da minha carteira, é muito mais fácil aparecer-nos pela frente uma loja dos chineses do que uma loja que venda,por exemplo, cestaria. A feira de Agosto é a oportunidade única de encontrar todas estas coisinhas reunidas num só espaço. A pior parte é mesmo regatear os preços. A grande maioria dos feirantes portugueses fica extremamente ofendidocom qualquer tentativa de discutir preços, o que é uma pena, já que parte da piada de ir a feiras e mercados está na possibilidade de chegarmos a casa com uma peça quase única por uma pechincha. Felizmente, entre os artesãos tradicionais e os feirantes habituais há sempre uma ou duas barraquinhas marroquinas onde este ano vou poder pôr em prática a arte de regatear.
A verdade é que é quase tão difícil não ir à feira de Agosto como seria difícil passar em frente à H&M Home, quando esta abrir no Chiado, e não entrar.
A primeira parte do Verão passou a
correr e eis que chegámos ao mês mais querido do ano. Agosto é o mês em que o
Alentejo deixa de ser silencioso e solitário e se enche de sons e
gentes. É o mês em que grande parte de Lisboa se põe ao fresco na costa
alentejana. Para os alentejanos, Agosto é o mês dos emigrantes, do
falar estrangeiro e das "tias" da Comporta.
Eu disse adeus ao
meu lugar cativo de estacionamento à "porta" da praia logo na última
semana de Julho. De agora em diante, como os demais veraneantes,
passarei a dar voltas e voltas até conseguir arranjar um buraquinho para
estacionar o carro e poder ir a banhos.
As praias, até há pouco
tempo praticamente desertas, enchem-se agora de famílias, vindas de
todos os lados, com elementos de todas as faixas etárias, carregadas com
todo um arsenal próprio para uma estadia prolongada.
Às tias da
Comporta juntam-se os emigrantes e os turistas estrangeiros. É a
unidade na diversidade. Faltam os locais, mas esses estão a trabalhar.
Agosto é mês de trabalho para os alentejanos. Quem tirou férias não
ficou por aqui. São poucos os que se escapam para a praia sempre que
podem. E eu aqui me incluo. Prática que já vem de Lisboa.
A
extensão de costa que vai da Comporta à Aberta Nova é das mais
concorridas. Eu recomendo sempre a Comporta a quem vem turistar. A
aldeia em si faz lembrar o algarve nos idos anos 80 mas é famosa no
estrangeiro, tem gente famosa, bares e esplanadas com pinta. E enquanto
vão e veem, fica-se mais à vontade noutras praias igualmente bonitas mas
menos na moda. A maior parte das pessoas parece gostar. Mas há duas
semanas atrás uns amigos da Holanda não vieram muito satisfeitos. Parece
que havia imensa gente no areal e tudo a beber champagne. Eles acharam
aquilo esquisito e nem pensaram duas vezes antes de mudarem de ares. E o
que diriam eles se em vez do champagne fosse a panela com o arroz de
tomate e o garrafão de vinho tinto?
Eu gosto das tias. Ou, no
caso, as que frequentam a praia da Aberta Nova. Acho preferível à
juventude da linha de Sintra que vai a banhos às praias da linha.
Tirando o chamamento das crianças em modo fanfarra do exército e o
espaço que ocupam na areia com a criançada, a família alargada e os
amigos, é seguro dizer que, pelo menos, não seremos incomodados por
bolas a voarem constantemente na nossa direcção.
Ainda na semana
passada uma bola, proveniente de um jogo de raquetes, voou por cima da
minha cabeça e aterrou a milímetros da toalha. Mas a aterragem da bola
veio seguida de um pedido de desculpas e da informação de que iriam
brincar para mais longe. Por outro lado, e graças à mania tão portuguesa
de nos sentarmos todos muito juntinhos é possível saber quem, mesmo
tendo aberto falência, foi esquiar para os Alpes, quem não dá férias à
empregada ou quem se divorciou e ficou na penúria.
Depois, há os
emigrantes que chegam a falar francês. Se não estiverem perto dos
carros é só um bocadinho mais difícil de adivinhar se são portugueses ou
não. Mas dá um jogo de praia quase tão bom como o Trivial Pursuit, pelo
menos até o francês ser substituído por uma pronúncia do norte
carregada.
Os turistas estrangeiros são os bem dispostos. Sempre
prontos para mais um dedo de conversa e para partilharem as aventuras
das férias, ficam fascinados com as coisas mais normais e aceitam as
dificuldades com um sorriso.
Agosto é um prato cheio. Por mim podia ser Agosto grande parte do ano.
Escrevo para o "Sol" desde fevereiro. Sai sexta sim, sexta não. Esta foi saiu na edição de 25 Julho. Na próxima sexta há mais, no jornal.
Longe vão os dias em que este casalrockeiroia a um festival de Verão assim como quem vai ali à loja da fruta e já vem. A combinação praia-concerto-noitede copos é dos melhores programasdeVerão. Quando vivíamos em Lisboa não passávamos sem ele e agora continuamos a fazer por isso. Mesmo quando
não havia cartaz que nos agradasse ao ouvido ou à carteira havia sempre
um ou outro concerto dentro de portas e mais uma dúzia deles à borla e
ao ar livre. Mas isso era antes de virmos para o Alentejo. Quando ir a um concerto não implicava nem conduzir 200 quilómetros nem dormir fora de casa. Por outro lado, se até aqui era possível fazer férias no Verão, desconfio que daqui para a frente as férias vão ficar limitadas aos meses de Inverno e tirar uns dias para ir acampar para um festival poderá não ser possível nos próximos tempos.
Agora, irfestivalar para Lisboa ou arredores obriga a toda uma logística que, para quem estava habituada a contar só consigo, se assemelha à de uma família numerosa, quando na verdade somos só um casal e uma criatura de quatro patas. Ou, então, sou eu que complico as coisas.
Como festival e copos não condizem com condução, o primeiro passo é arranjar dormida: ligar aos amigos e saber quem nos pode dar abrigo.Depois, porque nem todos os albergues amigos aceitam a estadia da nossa cadela, é necessário arranjar dormida também para ela, de preferência perto da nossa para não ser preciso andar às voltas para deixar e levantar a "encomenda".
Em terceiro lugar é preciso arranjar lugar para estacionar o carro, que tem de ser em linha com os transportes públicos necessários a toda a deslocação e fora das zonas com parquímetro.
Quando se pensa em ficar afestivalar pelo litoral alentejano pensa-se logo no Sudoeste mas, depois,vai-se a ver e o cartaz está cheio dedj'sde quem nunca ouvi falar e já sabemos que aquilo vai estar a abarrotar de miudagem, e já não há paciência.
Para ficarmos pelo litoral alentejano não há melhor do que o Festival Músicas do Mundo de Sines. Raramente repetem as bandas, gasta-se muito menos dinheiro,quando comparado com os outros festivais,
não há ninguém a impingir catrefadas de brindes, que depois de anos
encafuados numa gaveta, porque podem dar jeito, acabarão eventualmente no lixo. E a cereja no topo do bolo: dezenas de barraquinhas com artesanato.
Fiquei encantada há uns anos atrás quando passei lá quatro dias,a fazer praia durante o dia e a ouvir música até de madrugada.Mas,logo no ano seguinte o parque de campismo a modos que fechou—podia-se acampar mas por conta e risco dos festivaleiros — e o slogan "música com espirito de aventura" passou a assentar que nem uma luva. No último ano, ir a banhos de água doce só mesmo nos chuveiros da praia, mudar de roupa requeria toda uma ginástica ou simplesmente perder a vergonha e cá vai disto! Não sei se importa esclarecer, mas eu optei sempre pela ginástica. Os mais corajosos aguentaram os dias todos, mas há quem, neste regime, não aguente mais do queum fim-de-semana.
Entretanto,
suponho que a organização do festival terá percebido o potencial que um
evento deste tipo tem para o turismo e para a economia local e em como ficamos todos mais ricos quando decidimos escutar o Mundoe este ano apostou-se novamente em melhorar as condições de estadia dos visitantes. Aliar a praia à música e à cultura pode ser, certamente, uma das melhores ofertas do Alentejo num programa alternativo mas extensível a toda a família. Ana Rosado