sábado, 16 de agosto de 2014

Querido mês de Agosto (com musiquinha apropriada)






 A primeira parte do Verão passou a correr e eis que chegámos ao mês mais querido do ano. Agosto é o mês em que o Alentejo deixa de ser silencioso e solitário e se enche de sons e gentes. É o mês em que grande parte de Lisboa se põe ao fresco na costa alentejana. Para os alentejanos, Agosto é o mês dos emigrantes, do falar estrangeiro e das "tias" da Comporta.
Eu disse adeus ao meu lugar cativo de estacionamento à "porta" da praia logo na última semana de Julho. De agora em diante, como os demais veraneantes, passarei a dar voltas e voltas até conseguir arranjar um buraquinho para estacionar o carro e poder ir a banhos.
As praias, até há pouco tempo praticamente desertas, enchem-se agora de famílias, vindas de todos os lados, com elementos de todas as faixas etárias, carregadas com todo um arsenal próprio para uma estadia prolongada.
Às tias da Comporta juntam-se os emigrantes e os turistas estrangeiros. É a unidade na diversidade. Faltam os locais, mas esses estão a trabalhar. Agosto é mês de trabalho para os alentejanos. Quem tirou férias não ficou por aqui. São poucos os que se escapam para a praia sempre que podem. E eu aqui me incluo. Prática que já vem de Lisboa.
A extensão de costa que vai da Comporta à Aberta Nova é das mais concorridas. Eu recomendo sempre a Comporta a quem vem turistar. A aldeia em si faz lembrar o algarve nos idos anos 80 mas é famosa no estrangeiro, tem gente famosa, bares e esplanadas com pinta. E enquanto vão e veem, fica-se mais à vontade noutras praias igualmente bonitas mas menos na moda. A maior parte das pessoas parece gostar. Mas há duas semanas atrás uns amigos da Holanda não vieram muito satisfeitos. Parece que havia imensa gente no areal e tudo a beber champagne. Eles acharam aquilo esquisito e nem pensaram duas vezes antes de mudarem de ares. E o que diriam eles se em vez do champagne fosse a panela com o arroz de tomate e o garrafão de vinho tinto?
Eu gosto das tias. Ou, no caso, as que frequentam a praia da Aberta Nova. Acho preferível à juventude da linha de Sintra que vai a banhos às praias da linha. Tirando o chamamento das crianças em modo fanfarra do exército e o espaço que ocupam na areia com a criançada, a família alargada e os amigos, é seguro dizer que, pelo menos, não seremos incomodados por bolas a voarem constantemente na nossa direcção.
Ainda na semana passada uma bola, proveniente de um jogo de raquetes, voou por cima da minha cabeça e aterrou a milímetros da toalha. Mas a aterragem da bola veio seguida de um pedido de desculpas e da informação de que iriam brincar para mais longe. Por outro lado, e graças à mania tão portuguesa de nos sentarmos todos muito juntinhos é possível saber quem, mesmo tendo aberto falência, foi esquiar para os Alpes, quem não dá férias à empregada ou quem se divorciou e ficou na penúria.
Depois, há os emigrantes que chegam a falar francês. Se não estiverem perto dos carros é só um bocadinho mais difícil de adivinhar se são portugueses ou não. Mas dá um jogo de praia quase tão bom como o Trivial Pursuit, pelo menos até o francês ser substituído por uma pronúncia do norte carregada.
Os turistas estrangeiros são os bem dispostos. Sempre prontos para mais um dedo de conversa e para partilharem as aventuras das férias, ficam fascinados com as coisas mais normais e aceitam as dificuldades com um sorriso.
Agosto é um prato cheio. Por mim podia ser Agosto grande parte do ano. 

Ana Rosado

Jornal "Sol" a 8/8/2014

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