segunda-feira, 11 de abril de 2016

Perder | Ganhar

Ou a razão do meu cepticismo.
Quando nós tínhamos 23 anos perdemos uma amiga para o cancro. Aos 23 anos não se tem uma única preocupação no mundo a não ser, por exemplo, mostrar aos nossos pais, que a faculdade vai indo. Aos 23 anos sai-se com os amigos, faz-se muitas compras, janta-se com as amigas aproveitando que os pais estão fora o fim-de-semana. E o trinómio praia-jantar-copos é tudo na vida.
Aos 23 anos ainda não se teve oportunidade de viajar muito, de experienciar um grande amor, de pensar em ter filhos ou de pensar no que gostaríamos de fazer depois da faculdade. Aos 23 anos nenhuma de nós tinha acabado a faculdade.
Mesmo depois de ter sido internada em Outubro e de sabermos qual era o problema, os médicos disseram-nos que pelo Natal teríamos a Patrícia de volta. A minha Avó tinha morrido há três anos e eu ainda não estava recuperada. Mas, no caso da Patrícia, nunca duvidei de que o resultado pudesse ser outro. Afinal, só tínhamos 23 anos e a vida toda pela frente.
Fiz planos. Era fixe sermos nós a ir busca-la no carro dela (ela tinha carro mas não conduzia, eu tinha carta e conduzia, mas não tinha carro e portanto, era a motorista de serviço) quando ela saísse do hospital, de cabelo curtinho mas pronta para retomar aos poucos a vida normal.
Fomos visita-la duas vezes e depois acabou.
Perdi tanto nesse dia e nos dias que se seguiram.
 Quando fiquei grávida ganhei enjoos, azia, noites mal dormidas (muitas), comentários irritantes. E apesar de saber que há muitas coisas que podem correr mal, também ganhei um bocadinho de esperança no mundo e de um amanhã melhor. E às vezes, até não sei bem porquê.

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